Wednesday, December 30, 2009

R.I.P.

Intuia esta possibilidade: o dia em que me dou conta de que nunca deveria ter começado um blog...

Monday, October 19, 2009

Monday, August 24, 2009

Lição nº3

être gauche: sempre no mal-dito (o) mal entendido.

Sunday, August 23, 2009

O inabsorvível pela alma
"Depois, reagindo, meditei que tudo o que eu escrevia tinha o mesmo carácter do acto privado e vergonhoso, e que a diferença entre os dejectos do corpo e os do espírito estava apenas em que aqueles eram a sujeição física e malcheirosa de existir-se dia-a-dia, mas algo que não tinha sentido em si, enquanto os do espírito eram a sublimação de fezes mentais, a transformação do inabsorvível pela experiência da alma, em refinamento de experiência noutro plano."
Jorge de Sena
Sinais de Fogo

Monday, July 27, 2009

Inércia e Atrito (ou o Princípio da Incerteza)

A lei da inércia diz que todo o corpo permanece parado ou em movimento rectilíneo se nenhuma força externa actuar sobre ele. Por outro lado, sabemos que só se pode travar pela acção do atrito - o atrito é já força. Curioso é imaginar que o estar parado coincide, na inércia, com o movimentar-se em linha recta.
Em suma: a inércia, no movimento, é um andar para a frente, sempre para a frente sem hesitação, isto é, sem desvio – movimento do certo, da certeza de estarmos na direcção recta. O atrito torna-se, por sua vez, a possibilidade de travar esse movimento, elemento de desaceleração e de paragem; seria, por assim dizer, o princípio da incerteza ou a pedra no sapato.
Porém, não se pode viver nem no movimento da inteira certeza - no movimento recto - nem na permanente paragem - no atrito. Já se disse, de algum modo, na lei de Newton, de onde nos vem a errância, feita de movimentos por vezes incertos. O desvio não resulta nem da inércia (imobilidade ou direcção recta) nem do atrito (travão), resultando antes de outras forças, forças inesperadas: uma aragem, uma onda, um tremor. Estas forças impelem-nos para o movimento de desvio quando se quer instalar a certeza inabalável, e o que delas retiramos são as alegrias dos encontros e o espanto da descoberta.

Tuesday, July 07, 2009

Thursday, July 02, 2009

Vidro estilhaçado
Estilhaçar um vidro, isto é, fazer outra coisa de uma superfície lisa.
Uma teia cresce da respiração entre pedaços de matéria. É feita de vazio, da interrupção.
Pode-se ficar fascinado durante horas por essa espécie de milagre. Somos o animal capturado.
O que espanta é a transparência de lago atravessada por linhas de violência. Vestígio do embate entre dois corpos.
Todo o encontro é violento. Todo o encontro pressupõe a criação de teias inexplicáveis feitas de linhas de ar. Essa teia é o que assegura o acontecimento.
O estilhaçamento do vidro equivale a encontrar novas paísagens, à maneira de um caleidoscópio.